EM NOME DO POVO ITALIANO (1971)
“Em Nome do Povo Italiano” é outro dos melhores filmes que
conhecemos de Dino Risi. Um filme verdadeiramente “popular”, no sentido que
esta palavra pode ter de mais nobre e exigente, uma obra realizada
efectivamente “em nome do povo italiano”, com tudo o que isso implica. Dino
Risi mostra que um filme “popular” é um filme feito a pensar na promoção cívica
e crítica do povo, não para o servir nos seus apetites mais baixos, mas para o
promover a escalões intelectuais mais elevados. “Em Nome do Povo Italiano” é,
isso mesmo, uma obra extremamente complexa, inteligente, corajosa, lúcida, verdadeiramente
aberta a todos, jogando com figuras centrais e personagens marginais
impecavelmente desenhadas, num traço satírico que a todos convence e cativa,
Poderia, seguramente, fazer-se desta comédia um filme jurídico-político
extremamente hermético e de difícil leitura. Mas aí, a obra perderia muito do
seu vigor, e grande parte do seu impacto popular. Cedendo nalguns aspectos
acidentais, Risi preserva o essencial e transporta-o a amplas plateias.
Vejamos, rapidamente, como poderemos pôr o acento no essencial
(dado que o filme de Dino Risi, na sua aparente simplicidade, é, efectivamente,
de uma grande complexidade). A chave para o filme encontra-se lapidarmente
expressa logo nas duas sequências iniciais: uma, que define a escrupulosa acção
de um magistrado que assiste à destruição de um imóvel construído
fraudulentamente (UgoTognazzi); outra, que encerra, sob a fórmula de curriculum
vitae, a existência e a actividade de um industrial que viaja no seu belo
bólide encarnado e encontra assento um pouco por todo o conselho de
administração de duvidosa actividade industrial (Vittorio Gassman). Irá
perceber-se desde logo que o filme irá conjugar, mas em oposição, dois tipos
humanos de aparecimento muito constante ao longo de toda a filmografia de Dino
Risi: o arrivista vitalista que tudo e todos atropela na sua ânsia de lucro
fácil e de rápida ascensão na social (imagine-se o mesmo Gassman, de “A
Ultrapassagem”, alguns anos depois, agora num lugar decisivo do campo económico
italiano) e o cidadão obstinadamente honrado que a sociedade transformou num
homem azedo, mas que permanece puritanamente íntegro e escrupuloso no seu
trabalho (tente ver-se o Alberto Sordi de “Uma Vida Difícil”, dez anos depois
de ter dado aquela estrondosa bofetada no capitalista, um Sordi com um futuro
cinzento, numa carreira de magistrado impoluto). Do cruzamento destas duas
figuras nasce, não só um magnífico choque de dois belos comediantes (Gassman
regressado ao seu melhor e Tognazzi superando-o ainda em discrição e justeza),
como um processo à cidade, pleno de coragem e de acuidade. A investigação de
Tognazzi leva-o a desenterrar o passado e a entrever as actividades ilícitas e
fraudulentas de Gassman, e simultaneamente, por generalização imposta pela
própria obra, se desvenda o retrato da sociedade italiana dos anos 70. Gota a
gota, figura a figura (não descurando nunca o aparecimento, quase sempre
justificado, de certas caricaturas típicas de um retinto humor “operático”
italiano), a Itália dessa altura fica ali despida, frente aos olhos do
espectador. Raivosamente, Risi distribuiu as suas bofetadas um pouco por todo o
lado, da justiça à política, da alta finança à indústria, da construção civil
ao cinema, do proxenetismo à televisão, dos “jornais de actualidades” à “dolce
vita”... Mas, atenção, muitos e muitos são os filmes que distribuem alfinetadas
e tudo deixam na mesma. Porque lhes falta uma coerência interna, porque lhes
falta uma estrutura ideológica em que se baseia a crítica. Dino Risi nada deixa
ao acaso. O que vemos em “Em Nome do Povo Italiano” é, efectivamente, um
processo contra a cidade, contra a sociedade, contra a sociedade italiana
(“esta sociedade”, diz-se no filme), que permite tais excessos e para eles
encontra sempre maneira de perdoar, fazendo vingar o escapismo.
O filme vai ainda mais longe, depois de ter desafiado a cidade,
o magistrado apanhou o industrial prestando falsas declarações que o
comprometem no assassínio de uma prostituta. Poderá pensar-se o caso arrumado,
mas eis que às mãos do advogado vêm parar os cadernos escolares da rapariga,
onde esta confessa o suicídio. O magistrado hesita no destino a dar a esta
prova de inocência neste crime, enquanto percorre uma cidade desocupada, com
toda a gente a assistir (ouvir) uma partida de futebol decisiva: Itália-lnglaterra.
Vai lendo um diário de uma feroz amargura, onde se intercalam as frases em
inglês e a sua dramática tradução para o italiano. Vai assistindo à revelação
do suicídio e descobre que a Itália ganhou. Para as ruas desce agora o povo,
gritando “Viva a Itália!” e atravessando os ares com a bandeira tricolor. É a
glória e a confessada inconsciência, é a vitória (e a derrota) de uma
sociedade. Tognazzi vê, um pouco por todo o lado, o rosto de Gassman, ora
padre, ora soldado fascista, ora meretriz, ora popular irado (que incendeia uns
carros de matrícula inglesa). Das suas mãos, que apertam a prova da inocência
do industrial, deixa cair um caderno que se vai “purificar” nas labaredas do
carro em chamas. Gassman era todavia o responsável por muitas outras criminosas
actividades. Um dos responsáveis pela Itália de hoje. O magistrado pode
escolher e opta pelo que julga uma medida de saneamento. Sabendo, embora, que
ela, por si só, a nada levava de concreto. Mas, por suas mãos, justiçou um
homem corrupto. “Em Nome do Povo Italiano”. Poderá pensar-se que nada melhor do
que fazer justiça de alguma forma, mesmo que pelas próprias mãos. Mas o gesto
do magistrado nada mais representa do que a demonstração de quão doente está
esta sociedade, onde à traficância de uns opõe a puritana justiça cega de
outros. Magistrado e industrial estão afinal bem um para o outro. O seu frente
a frente é o frente a frente de uma sociedade doente. Estamos em 1970, mas
poderíamos estar muitos anos depois, na Itália de Berlusconi. Há sequências que
dir-se-iam ter sido rodadas em 2007.
Magnificamente interpretado, dirigido com grande serenidade
expositiva e com alguma complexidade (pela forma como se intercalam alguns
curiosos flashbacks e ainda pelo depoimento directo, que escolheu para certos
interrogatórios), “Em Nome do Povo Italiano” é, cinematograficamente, uma obra
de grande modernidade narrativa, desenvolta, inquietante. Pode estar “datada”
quanto aos cenários e ao guarda-roupa, mas é eterna na forma como discute
ideias. Possuidor de um humor muito italiano, mas nem por isso menos rigoroso,
este título revela uma inventiva diabolicamente eficaz quanto a processos:
quando dois magistrados discutem nas escadarias do palácio de justiça, o
incorruptível afirma “Eu sou um magistrado”, ao que o corrupto responde: “Eu
também!”. Nesse preciso momento desaba grande parte do interior do palácio de
justiça. O que irá obrigar à transferência dos tribunais para as casernas de um
quartel.
EM NOME DO POVO ITALIANO
Título original: In
Nome del Popolo Italiano ou In the Name of the Italian People
Realização: Dino Risi (Itália,
1971); Argumento: Agenore Incrocci, Furio Scarpelli; Produção: Edmondo Amati;
Música: Carlo Rustichelli; Fotografia (Cor): Alessandro D'Eva; Montagem:
Alberto Gallitti; Design de produção: Luigi Scaccianoce; Guarda-roupa: Enrico
Sabbatini; Direcção de produção: Maurizio Amati, Piero Lazzari; Som: Franco
Bassi, Bruno Brunacci; Production Companhias de produção: International Apollo
Films; Intérpretes: Ugo Tognazzi (Mariano Bonifazi), Vittorio Gassman
(Lorenzo Santenocito), Ely Galleani (Silvana Lazzarini), Yvonne Furneaux
(Lavinia Santenocito), Michele Cimarosa (Casciatelli), Renato Baldini
(Cerioni), Pietro Tordi (Professor Rivaroli), Maria Teresa Albani, Alfredo
Adami, Rossella Bergamonti, Francesco D'Adda, Marcello Di Falco, Checco Durante,
Edda Ferronao, Mario Maranzana, Paolo Paoloni, Enrico Ragusa, Franca Scagnetti,
Simonetta Stefanelli, Claudio Trionfi, Franco Angrisano, Gianfilippo Carcano,
Vanni Castellani, Piero Nuti, Franca Ridolfi, etc. Duração:
103 minutos; Classificação etária: M/12 anos; Distribuição em Portugal:
inexistente; DVD: Studio Canal / Cinema all’ Italiana (original italiano, com
legendas em francês).
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