quinta-feira, 10 de setembro de 2015

AS AMIGAS


AS AMIGAS (1955)

“Le Amiche” é um dos poucos argumentos adaptados de Michelangelo Antonioni. Escrito de colaboração com Suso Cecchi D'Amico e Alba De Cespedes, parte de um conto ou novela de Cesare Pavese, "Tra Donne Sole", que integra a obra “La Belle Estafe”. Não andarei muito longe da verdade se o considerar o mais fraco dos filmes desta primeira fase de Antonioni. Desconheço o texto original de onde parte, que me dizem relativamente diferente do que o cineasta nos apresenta, ainda que siga em traços gerais a trama de Pavese, escritor nascido em Turim, que passou pelo partido fascista, transitando depois para o partido comunista, tendo-se suicidado com 41 anos e uma talentosa carreira de poeta e ficcionista, além de ensaísta literário, dedicando-se sobretudo à literatura norte-americana. De carácter sombrio e depressivo, isso mesmo se transmite para o filme de Antonioni, que aborda as relações de cinco mulheres que se encontram acidentalmente em Turim, todas elas evoluindo nos ambientes da média-alta burguesia.


Curiosamente, o filme inicia-se num tom que o cola a “Escândalo de Amor”. Clelia, nascida num bairro pobre de Turim, mas a trabalhar numa casa de moda em Roma, regressa à sua terra natal para aí abrir uma sucursal da casa mãe. No hotel onde se instala, descobre uma jovem mulher, Rosetta Savoni, filha de boas famílias, que tentou suicidar-se. Depois de uma lavagem ao estômago, recupera, mas um grupo de amigas, Momina De Stefani, Mariella e Nene, depois de cativarem Clelia para a causa, tentam perceber o que terá estado na base do desespero de Rosetta. Estabelece-se então uma pequena investigação particular que lentamente vai desvendando razões emocionais para a atitude extrema de Rosetta. Ao mesmo tempo que se acompanham várias outras peripécias amorosas, vamos assistindo ao evoluir das obras da nova boutique de moda, até se encontrar pronta para a abertura ao público.


Há, porém, entre outras, duas questões que dificilmente se admitem na construção do filme: a ligação entre estas duas linhas ficcionais surge por vezes desgarrada, sem grande coerência; a descrição, algo primária e maniqueísta da existência daquele grupo de mulheres e dos respectivos acompanhantes masculinos, deriva do entendimento de um neo-realismo redutor, que, afastando-se da luta de classes como tema, se concentra na análise de uma certa burguesia para lhe esventrar vícios e defeitos. Há mesmo uma personagem masculina, Tony, que é a que se aproxima mais do mundo do trabalho, que é apresentada como protótipo a seguir, muito distante de duas outras, Lorenzo e Cesare Pedoni, o arquitecto, que se mostram arrogantes e arrivistas, como convém ao esquema. Mas a verdade é que o argumento por vezes apresenta falhas difíceis de digerir, e uma das não menos graves encontra-se no final, quando Clelia e Tony se afastam, apesar de se amarem, porque ele trabalha em Turim e ela regressa a Roma. Se se amavam tanto não poderiam reunir os trapinhos e viver e trabalhar na mesma cidade? Não, porque as razões ideológicas do argumento queriam mostrar que duas personagens de estratos sociais diferentes (mas não tão diferentes assim, bem vistas as coisas) não se podem conciliar.
Mais um elo do progressivo deslizar do neo-realismo de análise social das classes operárias para a observação crítica da vida da burguesia italiana do pós-guerra, “As Amigas” é igualmente uma etapa na construção de um estilo e de um projecto por parte de Antonioni. Não tão rigoroso como os seus filmes anteriores, mantém todavia o interesse pelo universo feminino, pelo enquadramento paisagístico e urbano, por uma secura de linguagem cinematográfica que iria atingir o seu apogeu pouco depois. 


É interessante notar que, depois de “Cronaca di un Amore” (50) e “La Signora senza Camelie” (53), depois de “I Vinti” (53) e do episódio de “L'Amore in Città”, sintomaticamente chamado “Tentato Suicídio”, nos apareça este “Le Amiche”, que nos faz recuar um pouco ao neo-realismo inicial, mas sem a frescura e a simplicidade de um De Sica, Visconti, Fellini ou Rossellini. Mas Antonioni reserva-nos imediatamente a seguir um boa surpresa: “O Grito”.
Ressalve-se o excelente trabalho do fotógrafo Gianni Di Venanzo e a boa partitura musical de Giovanni Fusco. Cinco actrizes dão vida a personagens nem sempre muito consistentes, Eleonora Rossi Drago, Valentina Cortese, Yvonne Furneaux, Madeleine Fischer e Anna Maria Pancani, e três actores, Gabriele Ferzetti, Franco Fabrizi e Luciano Volpato, sustentam o elenco masculino.

AS AMIGAS
Título original: Le Amiche

Realização: Michelangelo Antonioni (Itália, 1955); Argumento: Michelangelo Antonioni, Suso Cecchi D'Amico, Alba De Cespedes, segundo conto de Cesare Pavese ("Tra Donne Sole", do livro “la Belle Estafe”); Produção. Giovanni Addessi; Música: Giovanni Fusco; Fotografia (p/b): Gianni Di Venanzo; Montagem: Eraldo Da Roma; Design de produção: Gianni Polidori; Decoração: Gianni Polidori; Guarda-roupa: Enzo Bulgarelli; Maquilhagem: Gabriella Borzelli, Anna Cristofani, Giovanni Donelli; Direcção de produção: Gino Millozza, Pietro Notarianni; Assistente de realização: Luigi Vanzi; Som: Giulio Canavero, Emilio Rosa, Ennio Sensi; Companhia de produção: Trionfalcine; Intérpretes: Eleonora Rossi Drago (Clelia), Gabriele Ferzetti (Lorenzo), Franco Fabrizi (Cesare Pedoni, o arquitecto), Valentina Cortese (Nene), Yvonne Furneaux (Momina De Stefani), Madeleine Fischer (Rosetta Savoni), Anna Maria Pancani (Mariella), Luciano Volpato (Tony), Maria Gambarelli (a empregada de Clelia), Ettore Manni (Carlo), Marcella Ferri, Alessandro Fersen, etc. Duração: 104 minutos; Distribuição em Portugal: Costa do Castelo Filmes; Classificação etária: M / 12 anos. 

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